Divina Santa Cruz

“Monsanto, Etnografia e Linguagem” de Maria Leonor Carvalhão Buescu. p.66-67.
“É, porém, a festa do 3 de Maio, misto de motivo religioso e profano, Festa de Santa Cruz e Festa do Castelo, a verdadeira festa de Monsanto. Em toda a roda do ano, nenhuma iguala a Festa do Pote em entusiasmo e fugaz reviver das tradições semimortas. Das arcas saem os saiotes e garridos xales, as fitas adamascadas com que ligam as tranças enroladas em martelo; as casacas de veludo e renda. Os adufes soam desde manhã, e novas e velhas lá vão em grupos recordando ps velhos cantares. Uma de cada rancho transporta à cabeça um pote caiado de branco, profusamente ornamentado e cheio de flores; outras caminham imediatamente atrás, tocando os adufes; outras, ainda, agitam, alegremente, no ar as maias ou marafonas, bonecas com armação de cruz garridamente vestidas. Enraizada numa tradição pagã, como se observa pelos vestígios evidentes da glorificação do Maio, esta festa foi, todavia cristianizada e nacionalizada pela sobreposição da Lenda do Cerco (sobres esta lenda ver Enc. Port. e Brás., vol. XVII, s.v.Monsanto). (…)

O pote branco lançado do alto das muralhas evoca a bezerra, vítima do estratagema salvador, cheia de trigo – as flores. As maias, bailando nas mãos das raparigas, deixaram de representar o Maio pagão e bacante e representam a figura sábia da velha conselheira e, segundo outros, o povo de Monsanto em alegre arraial, festejando a retirada dos sitiantes. De regresso a casa, as maias, deitadas sobre as camas, têm o condão de livrar a casa do raio. Esta festa, cheia de pagão colorido, é, como vimos, um vestígio nítido das velhas festas de Maio, cristianizadas e nacionalizadas como sucedeu em quase todos os casos. Não nos parece deslocado, no entanto, chamar a atenção para a relação que pode haver entre a festa de Maio e os seus ritos de abundância, prazer, e força da Natureza e uma quadra que se encontra no cancioneiro local, rica, na sua concisão, de elementos etnográficos:
Eu amei quem nunca amara
Nem tal intento tevera
Fui a amar o rei das flores
no centro da Primavera.“

“Subsídios para a História Regional da Beira Baixa”, Volume I, Tomo I, edição Junta Provincial da Beira Baixa, 1940. p44-45
No cimo do monte tem um fortíssimo castelo com quatro tôrres. Uma defronte do castelo em penha viva chamada a Torre do Peão, demolida pela face que olha para a fortaleza, sendo tradição que o fora no tempo das alterações de Évora no ano de 1637. É esta Fortaleza obra dos Templários, que nela se fizeram fortes contra a potência e orgulho dos mouros, que a tiveram em sítio sete anos e não os Romanos, como alguém escreveu, por menos verídicas informações. A tão prolixo cêrco não podiam já resistir os cristãos por falta de sustento, até que em dia da Invenção de Santa Cruz, três de Maio, pelos anos de 1230 lhe inspirou Deus que dessem a comer a uma bezerrinha, uma limitada porção de trigo, que ainda havia no castelo , e a lançassem dêle à vista dos inimigos que achando-a rebentada, e cheia de trigo, julgaram que ainda havia no castelo tanto alimento que sustentavam os animais com trigo; pelo que desconfiados da empreza, levantaram logo o sítio. Ainda hoje em memória dêste feito, no dia de Santa Cruz, se ajunta a mocidade pelas tôrres e penhas, com grande regosijo, lançando cântaros, roscas e várias coisas. (…)
Monsanto, 20 de Maio de 1758
Ayres Francisco de Proença e Sylva
Prior da Freguesia do Salvador











1978, Arquivo RTP, Festa do Castelo (3 de Maio, quarta-feira)
4´19 “Símbolo de transformações sociais, a Tradição da Festa do Castelo em Monsanto parece estar a perder-se. Os velhos comemoram-na ainda com entusiasmo mas as novas gerações sentem-se atraídas por outros centros de interesse. A festa deste ano pode ter sido uma das últimas a realizar-se. (…)”
